Luiz Eduardo Villaça Leão
Professor Titular da Disciplina de Cirurgia Torácica do Departamento
de Cirurgia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP-EPM
Título resumido: SIMPATECTOMIA VIDEOTORACOSCOPIA NA HIPERIDROSE
ENDEREÇO, TELEFONE E FAX DO AUTOR:
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INTRODUÇÃO
A hiperidrose primária ou essencial é uma afecção
caracterizada por sudorese excessiva, desproporcional à necessária
para a regulação térmica e à dissipação
do calor corporal. Na maior parte dos casos essa sudorese agrava-se frente a
fatores emocionais e também ao calor. A hiperidrose apresenta localizações
preferenciais, como a palma das mãos, planta dos pés, axilas,
crânio-faciais, além das associações de várias
dessas. Clinicamente, contudo, a característica marcante da hiperidrose
é profundo desconforto que esta sudorese excessiva causa ao paciente.
Esse desconforto é marcante em grande número de atividades rotineiras,
propiciando importante constrangimento, embaraço, vergonha e comprometendo
severamente a vida afetiva, profissional e social dos portadores. A etiologia
dessa disfunção ainda não é totalmente conhecida,
mas admite-se que ocorre excessiva estimulação simpática.
A sudorese palmar abundante dificulta o contacto social, a escrita, atividades
manuais, condução de veículos, manipulação
de objetos, entre outros. Os pés molhados além do desconforto
que produzem, tornam difícil o uso de sandálias e mesmo andar
com os pés descalços. A hiperidrose axilar produz molha e mancha
a roupa, além de constranger os portadores, que geralmente passam a usar
apenas roupas pretas ou brancas. A hiperidrose crânio facial constrange
profundamente o portador, que se vê chamando atenção, e
ao mesmo tempo aparentando insegurança, medo, falta de confiança.
Variando a intensidade, predomina, sem dúvida, no quadro clínico,
o constrangimento, o isolamento, a insegurança e as dificuldades na vida
social, profissional e afetiva. Em número significativo de casos, essa
insegurança foi agravada pela pouca importância à queixa
do paciente, quer por parte dos familiares, mas mesmo pelos médicos procurados,
pela falha no diagnóstico e, muitas vezes, por uma sucessão de
medidas inócuas propostas anteriormente.
Há muitos anos sabe-se que a simpatectomia cervico-torácica poderia
eliminar os sintomas da hiperidrose palmar. A presença de complicações
sérias após a operação convencional - principalmente
a síndrome de Horner causada pela lesão do gânglio estrelado
- fez com que esse procedimento fosse pouco utilizado no tratamento da hiperidrose.
Na década de 50, Kux (1), utilizando a toracoscopia direta, realizou
com sucesso a simpatectomia toracoscópica, potencialmente capaz de evitar
as complicações citadas. No entanto, esse importante avanço
não teve o impacto esperado.
Na década de 90, com o advento da videotoracoscopia e a sistematização
de suas indicações possibilitou que esse procedimento fosse indicado
e utilizado com significante benefício para os pacientes. O procedimento
foi realizado em diversos grupos, em todo o mundo. A simpatectomia toracoscópica,
indicada em diversas situações, destacando-se a hiperidrose, distrofia
simpática reflexa, síndromes isquemicas de membro superior e na
síndrome do QT longo.
Em nosso grupo (2), como também em outros relatos em nosso meio(3), os
bons resultados com a simpatectomia toracoscópica foram apresentados,
no entanto a hiperidrose representa parcela proporcionalmente pequena dessas
casuísticas. É nítido, revendo a literatura, o número
extremamente pequeno de casos de hiperidrose operados, comparados a outros países.
Acreditamos que tal fato possivelmente deve-se a insuficiente conhecimento da
doença, tanto por parte dos colegas médicos (talvez pela enorme
interface clínica envolvida) como pelos próprios doentes.
A experiência inicial desta casuística foi publicada em 1999 (23,
24, 25) . Desde os primeiros casos de hiperidrose, foi marcante a enorme satisfação
dos operados. Ocorreu grande afluxo de pacientes, muitos casos antes sem diagnóstico,
ou mesmo considerando-se "ansioso" ou "da minha natureza",
ou "fraco" ou mesmo "sujo" - situações usualmente
pejorativas - além dos transtornos próprios do cotidiano. Tal
incidência, inesperada, parece mostrar que mesmo tantas vezes sem dignóstico
- esse transtorno parece mostrar prevalência maior do que aquela suposta
por nós. Ao mesmo tempo, esse aumento da experiência propiciou
várias modificações e simplificou bastante a técnica
operatória, que passou a ser mais rápida, mais segura e mais barata.
CASUÍSTICA E MÉTODO
No período compreendido entre abril de 1999 e maio de 2002 foram operados
603 pacientes portadores de hiperidrose primária. A idade variou de 9
a 57 anos, com média de 26,2 anos. Quanto à distribuição
quanto ao sexo, o feminino predominou nesta casuística, com 365 pacientes
(60,5%) e 238 pacientes do sexo masculino (39,5%).
Os critérios de indicação cirúrgica quanto á
localização da hiperidrose constam da tabela que se segue:
Localização da hiperidrose Número pacientes Porcentagem
"Blushing" Facial (BF) 3 0,5%
Hiperidrose Cranio Facial com ou sem BF 47 7.8%
Hiperidrose facial + axilar 7 1,2%
H. Axilar "pura" 18 2,9%
H. Palmar-Axilar- Plantar 255 42,3%
H. Palmar- Plantar 273 45,3%
total 603 100%
Consideramos importante comentar que nos diversos levantamentos feitos ao longo
do período de estudo, ocorreram importantes variações quanto
à distribuição por sexo, idade e mesmo pela localização
da hiperidrose. Sob esse prisma, o autor considera que interferiu diretamente
apenas no número de pacientes portadores de hiperidrose axilar "isolada",
pelas razões expostas abaixo, na discussão. Dessa forma, acreditamos
que as demais mudanças ocorreram por outros motivos, possivelmente o
próprio interesse e motivação dos pacientes.
Técnica Operatória
Após a indução anestésica, os pacientes foram intubados com sondas traqueais comuns ou com sondas de dupla luz modelo Robertshaw (Broncocath). Quando utilizou-se a sonda de Robertshaw o controle broncoscópico foi utilizado preferencialmente no posicionamento da sonda. Ao longo desta casuística a utilização da sonda de dupla luz foi aos poucos sendo dispensada em favor do tubo orotraqueal simples. Durante o tempo intratóracico a ventilação foi interrompida naquele pulmão (sonda de dupla luz) ou através de manobras de apnéia e hipoventilação ou oxigenação apneica (sonda orotraqueal simples).
O posicionamento do paciente foi ponto crítico no aprimoramento da técnica. O decúbito lateral foi substituído pelo decúbito dorsal com elevação do dorso e posicionamento dos membros superiores em abdução, com extremo cuidado na proteção das estruturas vasculares e do plexo braquial. (Palazzo, ). Freqüentemente utilizou-se meias elásticas para minimizar a diminuição do retorno venoso na posição semi-sentada.
Utilizou-se ópticas de 4 a 5mm, zero graus e dois orifícios na região axilar. Na nossa sistematização o lado direito sempre é abordado inicialmente.Utilizamos portais de diâmetro entre 4 mm (permanente) e 5,5 mm (descartável) na região axilar. Os dois orifícios puderam ser posicionados na axila, na região pilosa. O primeiro portal usualmente era plástico e propiciava a entrada de ar e o calapso pulmonar. O segundo portal, geralmente metálico, era posicionado já sob visão direta.
Com o colapso pulmonar a visibilização do ápice da cavidade pleural é bastante adequado. Identificou-se cuidadosamente as costelas, observando-se que a primeira costela situa-se em plano e direção completamente diferente das demais. Assim, a identificação da segunda costela é crítica e constitui-se no ponto de reparo mais importante. O segundo gânglio torácico (T2) usualmente situa-se no espaço entre a segunda e terceira costelas, por vezes sobre a cabeça da costela, outras vezes sobre a articulação costo vertebral ou mesmo sobre o processo transverso da vértebra.
Identificou-se visualmente, muitas vezes e senão, palpatoriamente ou por dissecção a cadeia simpática. Considerou-se sempre a multiplicidade de variações anatômicas e também aquelas dependentes de idade, quantidade de gordura subpleural, sexo, constituição, etc. Na maior parte dos casos foi utilizada a secção da cadeia simpática sobre a segunda e terceira costela, isolando-se as fibras de T2 e T3. Em vários casos foi feita incisão também sobre a quarta costela, visando isolar T4 (particularmente em casos de hiperidrose axilar). A incisão, feita com gancho de 4,5mm conectado a bisturi elétrico ValleyLab, foi usualmente prolongada lateralmente, visando seccionar também as fibras de Kuntz.
Completado o isolamento dos gânglios simpáticos e confirmada a perfeita hemostasia, utilizamos uma sonda 16 ou 18F para a retirada do ar, em sistema sob selo d'agua durante a reexpansão do pulmão e manobra de Valsalva. Completado o procedimento, usualmente utilizou-se um ponto absorvível (Monocryl) ou cola acrílica (Dermabond).
O procedimento é repetido do lado esquerdo, com especial atenção às estruturas vasculares importantes (aorta descendente e artéria subclávia) bastante expostas e a proteção das mesmas.
Nos casos onde haviam aderências importantes e restou área cruenta pleural ou mesmo pequena fístula alveolar, optamos por manter a mesma sonda plástica e conecta-la a um sistema de drenagem torácica convencional. Na nossa observação, a incidência e intensidade de aderências pleurais foi bem maior nos hemitórax direitos. Algumas vezes, quando havia completa obliteração do espaço pleural por aderências, optamos por utilizar um único portal de 10mm e óptica de 10 x 5 com canal de trabalho. Através do canal de trabalho pode-se utilizar dissector rombo (EndoPeanut), cortante, ou mesmo o bisturi elétrico.
A coagulação com bisturi eletrônico monopolar foi usada com parcimônia, face a proximidade da medula espinhal. Pinças especiais adaptadas ao bisturi bipolar foram utilizadas em alguns casos.
Ao final da operação, foi feito exame radiográfico do tórax enquanto se aguardava o final do efeito das drogas anestésicas. Completada a operação, os pacientes foram encaminhados à sala de recuperação pós anestésica.
Resultados
Já ao recobrar a consciência, na sala operatória ou na
recuperação os pacientes observam que suas mãos estão
quentes e secas. Assim, os pacientes portadores de hiperidrose palmar e crânio
facial, na sua totalidade, apresentaram-se com o resultado perfeito já
no pós operatório imediato. O resultado imediato na região
axilar é muito bom, porém parece piorar no decorrer do tempo.
Na axila, a recidivas ou persistência do sintoma em menor intensidade,
ocorreu em cerca de 15 a 20% dos casos de hiperidrose axilar, em pelo menos
um dos lados.
Cerca de 70% dos pacientes referiram diminuição importante da
sudorese plantar (suar apenas sob calor intenso). Os 30% restantes não
notaram diminuição significativa do sintoma plantar.
As complicações pós operatórias observadas nessa
casuística foram a síndrome de Horner em 4 pacientes (0,7%) -
sendo que esse quadro já se reverteu em 3 deles em espaço de tempo
até 8 meses de pos operatório. Nesses pacientes, em todos haviam
aderências importantes nos ápices e num deles havia também
a presença de costela cervical.
A plexopatia braquial ocorreu em dois pacientes, sendo em uma delas bilateral
e em outro unilateral. A recuperação foi completa em ambos os
casos, ocorrendo recuperação completa em cerca de 4 semanas (caso
unilateral) e 4 meses (caso bilateral). Neste caso, de comprometimento bilateral
e assimétrico, possivelmente a paciente era portadora de condição
clínica predisponente (neuropatia sensível à pressão).
Em 3 casos ocorreu derrame pleural tardio (hemotórax) quando os pacientes
já se encontravam em suas atividades habituais, entre uma e duas semanas
de pós operatório. A toracocentese evacuadora foi suficiente para
a resolução dos 3 casos. Em 1 caso, ocorreu quilotórax
cerca de 2 semanas de pós operatório. O caso foi tratado com toracocentese
evacuadora e as medidas dietéticas recomendadas.
Dores nevrálgicas e/ou sensações parestésicas na parede torácica ocorreram com alguma freqüência, particularmente em mulheres acima dos trinta e cinco anos. Esse sintoma, foi contudo muito bem tolerado na maioria absoluta dos casos, muitas vezes sendo suficiente informar que "isso é normal" e "a recuperação é integral", o que ocorreu entre duas semanas a dois meses. Em apenas 6 casos, todos do primeiro "terço" desta casuística, essa dor constituiu-se em transtorno importante, tendo sido tratadas por especialistas com antidepressivos triciclicos e outras drogas antiepilepticas, sendo que o sintomatologia regrediu completamente no máximo em 3 meses. O estudo e a seqüência de prevenção desses quadros dolorosos no pós operatório estão sendo objeto de pesquisa que devrá ser publicada brevemente.
Quando se menciona "complicações pós operatórias"
na simpatectomia, acreditamos que o sintoma relevante e realmente importante
no pós operatório é a sudorese compensatória. Esse
fenômeno, também chamado hiperidrose reflexa, ao qual os pacientes
foram sempre instruídos e esclarecidos antes da operação,
nem sempre totalmente previsível quanto à sua intensidade, Mesmo
assim, o fenômeno foi referido por cerca de 70% deles. Existe uma tendência
de diminuição desse sintoma no período de um ano de pos-operatório
ou pouco mais, persistindo geralmente num nível bem mais baixo. Observamos,
grosseiramente, que apesar de constituir-se incômodo em 25 a 30% dos pacientes,
apenas 3 a 4% consideraram que tal fenômeno os fazia arrepender-se da
operação (pacientes com hiperidrose palmar predominante). Em pacientes
com hiperidrose axilar a queixa quanto à severidade da sudorese compensatória
foi mais freqüente. Os dados acima mencionados são subjetivos, de
difícil avaliação e estão sendo objeto de pesquisa
específica - a serem publicados oportunamente - em termos de qualidade
de vida e satisfação quanto à operação.
Como consideração geral, observamos predominância de avaliação
subjetiva da operação como excelente, ocorrendo inclusive diversas
reações de profunda emoção e gratidão à
equipe cirúrgica.
DISCUSSÃO
O suor é necessário para o controle da temperatura corpórea,
especialmente durante o exercício ou sob temperaturas mais elevadas do
ambiente. A sudorese é regulada pelo sistema nervoso autônomo simpático.
A hiperatividade das glândulas sudoríparas levam à perspiração
excessiva. Esta condição é conhecida como hiperidrose.
A hiperidrose é situação relativamente freqüente,
com incidência relatada aproximada de1 % da população (4).
Não se tratando de doença grave, quanto a risco de vida, trata-se
de situação extremamente desconfortável, que causa profundo
embaraço social e transtornos de relacionamento e psicológicos
no portador, que freqüentemente se isola socialmente e adquire hábitos
procurando esconder o seu problema. Curiosamente, por diversos fatores, uma
parcela ínfima dos pacientes tem seu problema resolvido e tratado de
forma eficaz e duradoura.
Com o advento da videotoracoscopia, divulgação do método
e segurança, a simpatectomia por via toracoscópica passou a assumir
uma posição importante no tratamento dessa afecção,
principalmente na Ásia e na Europa (5-17), Esta via de acesso, após
adequada experiência do cirurgião com treinamento videotorascocópico,
possibilita a realização de uma operação bem dirigida,
com mínimo risco das desagradáveis complicações
que ocorriam no passado, quando a via transcervical era utilizada, bem como
as seqüelas e cicatrizes de uma toracotomia clássica (18-21).
De fato, com a utilização da via transcervical, a lesão
do gânglio estrelado é muito freqüente e esperada, produzindo
seqüela importante (ptose palpebral, miose, enoftalmia), ou síndrome
de Claude-Bernard-Horner; além disso, pode ocorrer lesão do nervo
frênico, plexo braquial, entre outras. Tal incidência de complicações
fizeram com que esse procedimento fosse muito pouco utilizado na hiperidrose,
ficando reservado a aqueles pacientes com grave isquemia.
Sem dúvida, a simplicidade do procedimento videotoracoscópico,
que possibilita precisão e confiabilidade do acesso à cadeia simpática
fizeram do procedimento uma alternativa muito boa para a simpatectomia torácica,
em todo o seu espectro de indicações. Dentre as indicações
clássicas, como a isquemia, fenômeno de Raynaud, causalgia (distrofia
simpática reflexa) e a própria hiperidrose, destacamos outras,
que da mesma forma que a hiperidrose, causam constrangimento e desconforto ao
paciente, como o rubor facial excessivo ("blushing"), associado ou
não à hiperidrose crânio-facial.
O procedimento videotoracoscópico inicialmente padronizado pela maioria
dos cirurgiões era a ressecção da cadeia simpática,
desde a parte inferior do gânglio estrelado (T1) até T4 (4,8).
No início, ópticas de 10 mm e vários instrumentos foram
utilizados. A drenagem torácica era utilizada na maioria das vezes e
muitos realizavam a operação bilateral em duas sessões
operatórias diferentes. Com o avanço do método, maior destreza
dos cirurgiões e aperfeiçoamento do método, a operação
passou a ser realizada de forma ainda mais simplificada, sendo que em alguns
centros a operação é realizada com duas punções
por onde são introduzidas uma óptica de 2mm e a ponta de um cautério
para destruir seletivamente o segundo gânglio torácico (T2) (5,
7, 9-11, 13-15,), Nesta última estratégia, há necessidade
da insuflação de CO2 para afastar o pulmão. A cicatriz
assim produzida é mínima e o procedimento esteticamente excelente,
com cicatriz do tamanho de uma punção percutânea ("needlescopic
sympatectomy"). Em nosso grupo, a técnica sofreu também modificações,
temos utilizado apenas duas punções de 3 a 6 mm e ópticas
de 4 a 5mm. A resultado estético desse método que utilizamos tem
sido considerado bastante satisfatório por nós e ainda não
nos convencemos da necessidade de piorar bastante as condições
de visibilização (ópticas finas) e as opções
para o manuseio e tratamento do simpático. No momento, acreditamos que
uma possível diminuição (mínima) da cicatriz não
justifica qualquer risco que possa comprometer os resultados pós operatórios.
Existe na literatura recente alguma controvérsia entre a necessidade
de ressecar a cadeia simpática e procedimentos mais simples e rápidos,
como a eletro-coagulação, criocoagulação, bisturi
harmônico, destruição por radiofrequencia, destruição
por laser, ou a interrupção da cadeia por clips de titânio.
Não há evidências da superioridade de uma técnica
sobre a outra, sendo lícito supor que todos os métodos podem ser
eficazes na destruição da cadeia simpática. No nosso grupo,
optamos por utilizar a secção com bisturi monopolar, de forma
a produzir a menos passagem de energia elétrica e térmica sobre
a cadeia simpática, particularmente quando da secção sobre
a segunda costela.
A inervação simpática dos membros superiores e da região
axilar depende dos gânglios T2 a T5 na maioria dos casos. Assim sendo,
optamos quase sempre pelo tratamento dos gânglios T2 e T3 nos casos de
hiperidrose palmar e hiperidrose palmar - axilar. Excepcionalmente, e sempre
discutindo com o pacientes os riscos e benefícios, optamos por atingir
o gânglio T4. Note-se que o gânglio estrelado (C8-T1) participa
da inervação do membro superior em cerca de 10% dos casos.
Destacamos também que a maioria das fibras simpáticas pós ganglionares responsáveis pela inervação da face origina-se de T2, o que justifica a ablação desse gânglio no tratamento da hiperidrose crânio facial.
A experiência acumulada nesse grupo de operados está sendo analisada
pelo nosso grupo, e deverá ser objeto de futuras publicações,
quer em termos de modificações técnicas, de qualidade de
vida, aspectos psicológicos, e mesmo do resultado cirúrgico nas
diferentes localizações. Algumas impressões, contudo, julgamos
poder comentar, sem prejudicar a avaliação definitiva:
1. na hiperidrose palmar os resultados são brilhantes, com o desaparecimento
dos sintomas na totalidade dos casos. A sudorese compensatória é
usualmente bem tolerada e o índice de satisfação é
bastante elevado. Um pequeno número de pacientes pode referir leve umedecimento
nas mãos, em quantidade muito menor àquela anterior a operação.
Acreditamos que tal fato deva-se à pequena porcentagem de casos em que
existe a contribuição do gânglio T1 á inervação
simpática palmar.
2. a hiperidrose crânio-facial, usualmente aparece no adulto jovem, é
mais rara, porém parece produzir os sintomas mais graves do ponto de
vista psicológico. Os resultados da operação são
muito bons (sucesso superior a 95% dos casos). Os pacientes devem ser alertados,
contudo, que após a operação, além do suor compensatório,
terão as mãos secas e farão uso de creme hidratante. Além
disso, consideramos importante a experiência do médico e o bom
critério clínico no diagnóstico e indicação
cirúrgica da hiperidrose crânio-facial. Ao contrário da
hiperidrose palmar, onde o diagnóstico é muito simples, na hiperidrose
crânio facial há que se cuidar no diagnóstico diferencial,
principalmente ante aqueles indivíduos que, constitucionalmente, suam
mais do que os outros.
3. A hiperidrose axilar "pura" é aquela em que o resultado
cirúrgico da simpatectomia é inferior, onde há maior índice
de recidiva e peristência dos sintomas, face à maior variação
anatômica, além de maior intensidade no suor compensatório,
também pela maior área denervada. Assim, há que se considerar,
nessa eventualidade, as outras opções terapêuticas disponíveis,
como anticolinérgicos, aplicação de toxina botulínica,
e as diversas modalidades cirúrgicas de ressecção das glândulas
sudoríparas na região axilar.
O resultado imediato, com desaparecimento completo da hiperidrose é a
regra. Os poucos casos relatados de persistência de sintomas foram constatados
a identificação errônea de T2 (3) ou a presença de
fibras acessórias de Kuntz. Outro fenômeno observado com grande
freqüência é a melhora substancial ou desaparecimento dos
sintomas de hiperidrose na planta dos pés ( 16,22), O mecanismo fisiológico
dessa melhora ainda não está claramente esclarecido, mas é
observação de todos os autores, inclusive nossa, que tal melhora
pode chegar a 70-80% dos casos. Outro fenômeno bastante freqüente
é a denominada "sudorese compensatória", onde o paciente
refere aumento de sudorese em outras regiões do corpo, principalmente
no dorso e no abdomen. A sudorese compensatória já justificou
diversos trabalhos por alguns autores, que procuram evitar este efeito colateral
modificando o procedimento, isolando a cadeia simpática e apenas seccionando
as fibras pós ganglionares (7). Esses mesmos autores observaram contudo
que a diminuição no suor compensatório não foi importante,
ocorrendo, por outro lado, ausência de melhora na sintomatologia plantar
e maior incidencia de recidiva da hiperidrose palmar no pós operatório.
Assim, considerando os resultados obtidos com a simpatectomia torácica
videotoracoscópica, podemos dizer que trata-se de um método pouco
invasivo e extremamente eficaz no tratamento da hiperidrose. Acreditamos que
pode ser considerado o único método eficaz para curar a hiperhidrose
moderada e grave de mãos e faces. É o método de escolha,
especialmente se outras opções terapêuticas já foram
testadas, sem resultado satisfatório. Constitui-se também em método
eficaz para o tratamento da vermelhidão facial excessiva ou "blushing
facial" (17). Pode ser utilizada na hiperidrose axilar, devendo contudo
ser avaliada a longo prazo e comparada ás diversas técnicas de
cirurgia "local" sobre as glândulas sudoríparas a nível
axilar (26-29).
A nossa experiência sugere que a simpatectomia torácica bilateral
por videotoracoscopia consiste na melhor, senão a única opção
para o tratamento definitivo da hiperidrose palmar e crânio facial.
.
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